Quando o barato sai caro

qua, 7 fevereiro , 2018

gestao - Quando o barato sai caroÉ natural que, em tempos de crise, as empresas busquem formas de economizar nas despesas. Entretanto, alguns cortes de custos podem ser bastante arriscados para a operação da loja

Com o início do ano, é natural que muitos empreendedores queiram começar o novo ciclo com um olhar mais atento aos resultados do negócio, especialmente diante de sinais, como, por exemplo, prejuízo em meses consecutivos, aumento do endividamento da empresa, redução do fluxo de caixa ou incapacidade de pagar todos os compromissos.

Quando isso acontece, uma estratégia muito recorrente é o corte de custos, o que pode ser bastante saudável para a empresa. Mas antes de colocar esse planejamento em prática, é fundamental que o lojista detenha informações sobre o funcionamento da própria loja, suas prioridades e o que não pode cair em qualidade sob o risco de perda de clientes.

“Cortes de gastos, como redução da conta de telefone, luz ou embalagens, são sempre bem-vindos. O único problema está em cortar gastos que podem prejudicar o desempenho da empresa”, adverte o sócio fundador da Blue Numbers, consultoria especializada em Varejo e Pequenas e Médias Empresas, Márcio Iavelberg.

O corte de funcionários pode ser um exemplo de estratégia de risco. É claro que, em momentos críticos, é necessário reduzir o número de colaboradores uma vez que a folha de pagamento é responsável por um percentual significativo na composição de custos da empresa. Entretanto, deve-se lembrar de que, no varejo, usualmente, os colaboradores formam o ponto de contato com o shopper (comprador).

“Um funcionário que é bem avaliado pelos clientes terá sua ausência notada e, como consequência, o varejista se sujeita a perder uma parcela dos consumidores e do faturamento. Além disso, esse mesmo colaborador, quando treinado, executa bem suas tarefas, evitando desperdícios e erros”, analisa o professor do curso de Administração e especialista em varejo da ESPM, Alan Kuhar.

O fundador da Telos Resultados, Luiz Muniz, acredita que pensar apenas em cortar custos com pessoas pode ser uma forma de encobrir o real problema do negócio.

“Muitas empresas ainda lutam no mercado com armas de 50 anos atrás. Nem sempre o corte de funcionários é o melhor caminho. A demissão deve ocorrer quando o colaborador não tem o desempenho esperado. Ao contrário, pode-se perder em competitividade”, alerta.

Por onde começar?

O primeiro passo para economizar, com segurança, é acompanhar, de perto, os relatórios financeiros do negócio, como Demonstração de Resultados e Fluxo de Caixa, e criar indicadores sobre esses números. Com esses dados em mãos, é possível identificar se os recursos estão ou não sendo bem utilizados. “Qualquer desvio com relação aos objetivos esperados significa que a empresa não está fazendo a gestão mais eficaz”, comenta Iavelberg.

Outra análise importante é repensar se todos os gastos fazem sentido e se algum deles poderia sofrer redução. “Deve-se pensar o orçamento não pelo histórico, mas calculando o gasto ideal para se atingir o faturamento desejado”, sinaliza o executivo da Blue Numbers.

Depois de todas as análises e com as metas estipuladas, é fundamental que os colaboradores da loja também estejam envolvidos nos objetivos finais. Para tanto, Muniz sugere três passos para atingir essa meta. O primeiro deles é a comunicação exaustiva com a equipe.

“Os líderes devem fazer com que esse tema seja recorrente na empresa, para que o pensamento em redução de custos seja incorporado por todo o time”, avalia Muniz, ressaltando que outro passo importante é ter um modelo de gestão que permita planos de redução de custos envolvendo todos os níveis hierárquicos. “É importante que as metas atinjam a todos, desde o dono, até quem está no chão da loja”, reforça.

Por fim, o especialista também recomenda que a empresa desenvolva um plano de reconhecimento por mérito. “Conforme os colaboradores vão alcançando os objetivos estipulados, o empresário pode oferecer recompensas financeiras a esses funcionários”, diz. As campanhas de incentivo são sempre boas alternativas para iniciar um processo de conscientização. “Com o tempo, os colaboradores vão se acostumando a ter o olhar mais crítico para a redução dos gastos. Que tal, para cada “real” economizado, dividir 15% ou 20% com a equipe?”, sugere Iavelberg, da Blue Numbers.

Conte com bons parceiros

O varejista tem diversas tarefas complexas na gestão da loja e, entre elas, uma das mais críticas é gestão de estoques. É fundamental oferecer os produtos que os clientes procuram para evitar a perda de uma venda, mas, em contrapartida, o estoque não pode ser infinito, uma vez que implica em dinheiro parado e espaços mal ocupados.

Frente às dificuldades de gerir essa área, torna-se fundamental contar com bons parceiros. “Fornecedores que entregam com maior frequência e que não falham neste processo em prazo e quantidade de itens pedidos, ajudam a melhor a qualidade do estoque, além de facilitar a programação das compras”, analisa Iavelberg.

Outro cuidado fica para não cair na tentação de comprar o produto mais barato disponível no mercado, o que pode ser uma armadilha. No relacionamento com fornecedores, o varejista também deve estar atento àquele que o ajude a desenvolver o menor custo no relacionamento.

“O melhor fornecedor não é aquele que vende mais barato e, sim, o que permite reduzir os custos ao entregar o que foi combinado, no prazo correto, na quantidade certa e no valor estipulado na negociação”, mostra Kuhar, da ESPM.

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