Poder que transforma

seg, 19 dezembro , 2011

Descarte de produtos

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O ato de consumo não se esgota quando um produto é comprado. O descarte também é uma parte importante. Os resíduos devem fazer o caminho de volta à indústria, para que sejam tratados ou reaproveitados

Para chegar às lojas, os produtos passam por diversos processos. O mesmo caminho feito para que os itens cheguem ao ponto de venda é preciso ser feito para que voltem à sua origem; o objetivo é um correto gerenciamento dos resíduos e a transformação no modelo de produção e consumo. Isso é possível graças à logística reversa.

Esta ação está prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que virou lei e foi aprovada pelo governo federal no final de 2010.
O objetivo é fazer com que toda a cadeia produtiva tenha responsabilidade pelos resíduos oriundos do que fabrica, distribui ou comercializa.

De acordo com o assessor do Programa de Sustentabilidade do Varejo da Fundação Getulio Vargas (FGV), Luiz Macedo, isso favorece uma transformação no modelo de produção e consumo, refletindo diretamente na alteração do ciclo de vida de produtos e embalagens para que tudo seja reaproveitado e reprocessado em novas cadeias de produção.

“Os setores varejistas, a indústria e organizações da sociedade civil estão trabalhando agora na regulamentação da política, estabelecendo
acordos setoriais para a realização da logística reversa, buscando sinergia para criar planos e estruturas de trabalho que facilitem o cumprimento da lei, já que ainda haverá um período de adaptação para que as empresas se enquadrem à lei.” O especialista diz também que, em um primeiro momento, o ganho é a própria adequação à lei, que faz com que o varejista diminua o risco em relação a multas e sanções por parte do poder público. Além disso, o forte relacionamento que esse tipo de empresa tem com os consumidores pode fazer
com que os clientes aumentem sua confiança em relação ao estabelecimento e passem a frequentar o lugar mais vezes, não só para fazer suas compras, mas para levar seus resíduos para o descarte.

“No fim das contas, se o varejista estiver disposto a mobilizar seus clientes para esse tipo de ação, vai valorizar sua imagem, podendo aumentar o fluxo de pessoas na sua loja e, consequentemente, sua receita.”

O secretário de recursos hídricos e ambiente urbano do Ministério do Meio Ambiente, Nabil Bonduki, afirma que embora seja de responsabilidade dos municípios e do Distrito Federal a gestão integrada dos resíduos sólidos gerados nos respectivos territórios, compartilham da responsabilidade pelo ciclo de vida do produto os fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes e consumidores. “Ou seja, cabe a todos os agentes da cadeia exercer esforços voltados à não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento de
resíduos sólidos e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos (aquilo que não é passível de reciclagem ou reutilização).”

Bonduki explica que é nesse contexto da responsabilidade compartilhada que a PNRS estabelece a obrigação da logística reversa para
determinados bens de consumo, definindo-a como instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto
de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final adequada.

“A lei prevê a logística reversa de todos os tipos de resíduos, mas neste primeiro momento será prioritária para as cadeias de descarte de medicamentos; embalagens em geral; embalagens de óleos lubrificantes e seus resíduos; lâmpadas fluorescentes, de vapor de sódio e mercúrio e de luz mista; e eletroeletrônicos.”

Macedo, da FGV, comenta que não há dúvida de que a participação da população nesse processo seja fundamental. “As pessoas deverão
aprender a separar seu lixo e destiná-lo corretamente para a coleta seletiva do município. Para isso é necessário que conheçam os procedimentos. Nesse processo de mudança de comportamento, a interação entre varejistas e consumidores, pode ser muito útil.”

O assessor recomenda que o varejo realize campanhas de conscientização ambiental para seus consumidores; informe-os de que estão recebendo determinados tipos de resíduos, ajudando na compreensão sobre o processo de logística reversa; comunique essas ações no PDV; disponibilize pontos de coleta, em parceria com fabricantes/distribuidores.

Para o presidente da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (Abad) e do Instituto Abad, Carlos Eduarco Severini, embalagens de produtos já utilizados e outros materiais descartados após a compra e consumo dos produtos industrializados precisam encontrar um canal para retornar à indústria e serem devidamente reaproveitados. Nesse retorno, podem percorrer os canais de venda e distribuição que o produto percorreu antes de ser consumido. “Essa é a forma mais racional de integrar a recuperação dos resíduos e materiais recicláveis na cadeia de abastecimento. Com o engajamento de todos os segmentos no planejamento desse processo, a logística
reversa não apenas consegue ser funcional como se transforma em atividade rentável e socialmente relevante, no caso das cooperativas de catadores, por exemplo.”

Viável a todos

Considerando que os supermercados comercializam muitos produtos que deverão ser objeto do processo de logística reversa obrigatório, caberá a eles, independentemente do seu porte, adequar-se à legislação.

Macedo, da FGV, lembra que, por um lado, isso traz um desafio, uma vez que o varejista terá de planejar esse processo. Por outro, traz uma oportunidade de se incluir na política de gerenciamento de resíduos, evitando problemas futuros. “Creio que as pequenas empresas podem montar um sistema (mesmo que reduzido) para separar o lixo/resíduos que produz e até mesmo servir de postos de coleta de resíduos – lâmpadas, pilhas, baterias etc. – já que estão muito próximas dos consumidores.”

Ele acredita que normalmente, pelo tamanho do estabelecimento, as pequenas e médias empresas têm capacidade de recolhimento, desde que efetuem parcerias com os fabricantes/ distribuidores, recebendo os recipientes adequados para coleta e armazenamento dos resíduos.

Para Nabil Bonduki, do Ministério do Meio Ambiente, a coleta seletiva, em conjunto com a logística reversa, é um instrumento fundamental para viabilizar a PNRS. “De imediato, os varejistas devem estimular o público consumidor a fazer uso de sacolas ecológicas ou retornáveis, ou caixas de papelão para acomodar as compras, evitando e reduzindo ao máximo o uso em seus estabelecimentos.”

Ele lembra que os sistemas de devolução dos resíduos aos fabricantes serão implementados principalmente por meio de acordos setoriais com a indústria, nos quais todos os aspectos relevantes devem estar definidos, inclusive parcerias e responsabilidade pelos custos.

“O grande ganho que se espera é o social e principalmente para o meio ambiente, porque visa diminuir a descartabilidade de produtos, implicando uma redução dos custos para as empresas, amenizando impactos ambientais e diminuindo o consumo de matérias-primas, além de contribuir para o incremento da reutilização e da reciclagem de material. Sem a separação de resíduos (pelo menos os secos e
úmidos) dentro de casa, a logística reversa – um dos principais instrumentos da PNRS – não pode ser plena.”

“A nova lei prevê a ampliação da coleta seletiva nos municípios, o que é uma forma de facilitar o descarte doméstico adequado, mas é interessante que o consumidor possa entregar suas embalagens de produtos para reciclagem no mesmo local em que faz suas compras, já que isso significa praticidade, economia de tempo, além de facilitar a instauração do hábito de participar dessa iniciativa”, diz Severini, da Abad. Segundo o executivo, a adesão do consumidor fica bastante dificultada se, para descartar esses resíduos, ele tiver que se dirigir
a um local destinado exclusivamente para esse fim. “É contraproducente do ponto de vista do processo.”

Severini fala que a lei menciona a necessidade de incentivar a criação de cooperativas e fortalecer a atuação dos catadores, vistos pelo poder público como peças essenciais para o funcionamento da PNRS. “Portanto, é desejável que o varejo colabore para esse fortalecimento, entregando gratuitamente o material recebido por seu estabelecimento.” Para ele, essa é uma forma de garantir renda
a essas cooperativas e melhorar a remuneração e o poder de compra dos cooperados, que assim poderão ser integrados ao mercado de consumo. Em um prazo maior, a inclusão econômica desses catadores traz benefício a todo o comércio.

O coordenador de comunicação do Instituto Akatu, Estanislau Maria de Freitas Jr., diz que é preciso que os fornecedores melhorem a cadeia produtiva, alargando os limites com mobilização. “Para se ter uma ideia, cada pessoa descarta 1 kg de lixo por dia, no Brasil. Em São Paulo o índice é 1,6 kg, o que soma 365 kg em 1 ano.” Ele lembra que o governo tem projeto de tirar 16 milhões de pessoas
da miséria, que se tornarão novos consumidores. “O que é ótimo e louvável, mas antes de proporcionar à população a troca de celular a cada três meses ou a troca de televisão a cada Copa, é preciso criar condições de moradia, saneamento básico, educação e saúde.” Estanislau compara: “São Paulo gasta R$ 1,2 bilhão para coletar e tratar o lixo e R$ 7 bilhões com educação. Assim, a cada sete dias de coleta, joga-se um dia de educação no lixo”.

A grande maioria das pessoas acredita que ao tirar o lixo de casa acaba-se com o problema, mas a realidade não é bem essa. O coordenador do Akatu explica que é preciso ‘desmontar o lixo’ e o varejista tem de receber o produto que a pessoa leva à loja. “Isso faz parte da cidadania; a educação deve começar na escola, com as crianças, que são os principais decisores de compras. Se elas forem educadas, replicarão para seus pais.” Estanislau afirma: “seu filho pode não ouvir nada do que você fala, mas ele vê tudo o que você faz”.

O especialista conta que a logística reversa pode assustar, mas é muito fácil de ser aplicada no dia a dia das empresas varejistas. “O mesmo caminho que o produto faz para chegar ele tem de fazer para voltar. O melhor exemplo que temos é o que já acontece há muito tempo nas bancas de jornal. Os jornais não comercializados voltam para a indústria. Se as bancas conseguem fazer isso, qualquer
 um conseguirá.”

 

 

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