Hora do balanço

sex, 25 novembro , 2016

financeiro-2511Garantir uma aposentadoria confortável, fazer aquela tão sonhada viagem ou acumular uma reserva de caixa para a empresa exigem decisões corretas na hora de investir dinheiro. Confira as alternativas disponíveis no mercado

Ter uma empresa próspera não é uma tarefa simples. Números computados a partir da base de dados das Juntas Comerciais de todo o País comprovam tal afirmação. Das 231 mil empresas abertas no Brasil em 2015, 192 mil delas já foram fechadas. O cenário econômico atual pode ser um dos vilões, mas é a falta de organização financeira que acaba com muitas iniciativas de empreendedorismo.

A época de fim de ano, por exemplo, pode ser uma armadilha fatal àqueles empresários que não se prepararam para arcar com despesas obrigatórias do período, como décimo-terceiro, Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

Além desses gastos extras, a sazonalidade também obriga que, no fim do ano, o varejista invista em reposição de estoque a fim de se preparar para o incremento em vendas da época das festas. Esse reforço no sortimento esconde alguns perigos à saúde financeira de um empreendimento.

“São vários riscos: entrega (não há produto ou a entrega atrasa), capital de giro (não há dinheiro para compra, precisa de empréstimo ou prazo do fornecedor) e sobra de estoque (comprou muita mercadoria e não alcançou vendas compatíveis, principalmente em produtos que têm consumo sazonal)”, enumera o coordenador do MBA de finanças do Ibmec Brasília, Ricardo Stefani.

Todos esses gastos de fim de ano são de conhecimento de qualquer administrador, até porque se trata de um período delicado, inclusive para pessoas físicas. Então, porque tantos varejistas não se preparam e acabam colocando o empreendimento em risco por falta de capital?

Para o educador financeiro e presidente da Associação Brasileira de Educadores Financeiros (Abefin), Reinaldo Domingos, falta conhecimento que permita enxergar o negócio de maneira prática e a longo prazo. “As pessoas têm muitos sonhos, desejos e objetivos. Mas como vão traçar uma meta para alcançá-los sem trabalhar em cima de um número?”, alerta. 

Organização financeira

O primeiro passo a fim de não ser surpreendido pela falta de capital para arcar com as despesas extras típicas do fim de ano é aprender a enxergar além do que os olhos podem ver. “Quando falamos de orçamento, devemos nos preparar 12 meses para frente, no mínimo, sendo que o ideal seria um planejamento de 36 meses. Preciso ter certeza do que tenho, o que faltará e quais atitudes devo tomar para evitar o problema e tomar as rédeas da situação”, aconselha Domingos.

Uma vez tendo domínio sobre os números que envolvem o negócio, o varejista consegue precificar os produtos de maneira que dentro do valor já estão embutidos todos os custos que ele terá adiante, inclusive décimo-terceiro e reposição de estoques. Esse valor embutido deve, então, ser poupado ao longo do ano. A educação financeira também será determinante para que o empresário dê o destino correto ao montante poupado.

“Em alguns casos, não compensa realizar aplicações financeiras, pois os bancos pagam abaixo da inflação. Uma boa estratégia é negociar o pagamento antecipado de algumas contas, com desconto. Saber efetuar os cálculos ajuda bastante na hora de decidir qual a melhor estratégia”, aconselha Stefani.

Essas medidas, se bem aplicadas, levam à saúde financeira do empreendimento, mas deve-se ter cuidado diante do saldo positivo. “O problema é que alguns se iludem, durante o ano, e gastam mais do que suas margens de lucro permitem. Alguns criam a própria ciranda que vai levá-los ao aperto”, adverte Stefani.

Para garantir a perenidade do negócio, é necessário estudar a viabilidade e efetuar as retiradas de acordo com a possibilidade e porte da empresa e, principalmente, com as margens de lucro que o ramo de negócio permite dentro de um planejamento a longo prazo.

captura-de-tela-2016-11-25-as-12-23-13

Soluções à vista

O fim de ano se aproxima e muitos varejistas já podem ter se dado conta de que fechar no azul será uma tarefa difícil de ser alcançada. De acordo com os especialistas, antes de se desesperar, é preciso analisar os números e tomar atitudes para que o problema não ganhe proporções ainda maiores. Nessa situação, o melhor caminho é negociar prazos e taxas.

“Estamos numa época em que os bancos têm mais dinheiro para emprestar do que locais/pessoas onde emprestar esse dinheiro. Uma boa estratégia é fazer o planejamento financeiro, verificando quais as contas a pagar, qual o faturamento previsto, as reposições necessárias e trabalhar o binômio: a melhor taxa possível no maior prazo possível. Uma vez garantida a liquidez, ou seja, se assegurar de que não faltará caixa para honrar os compromissos, à medida que houver folga financeira, o varejista pode antecipar os pagamentos para diminuir o valor dos juros pagos”, orienta Stefani. 

Todo esse processo de negociação e tentativa de controle da situação financeira do negócio podem ser muito estressantes e colocar um nível de pressão muito alto sobre os varejistas, mas, segundo o especialista da Abefin, o empresário não deve arcar com os problemas de maneira isolada. “É preciso envolver toda a empresa, apresentar a situação aos funcionários e comparar os números passados com os atuais. Apontar as dificuldades e também a solução.”

Muitos empresários preferem esconder um cenário negativo com medo de instaurar um clima de terrorismo dentro da empresa, mas Domingos garante que admitir os problemas é melhor do que disfarçá-los. “São os funcionários que irão ajudar a empresa a voltar a crescer. Se eles não tiverem conhecimento da situação, não tomarão atitudes para melhorá-la. A intenção não é ser pessimista, é engajar.”

Uma vez esclarecida a situação, o quadro de funcionários estará unido para promover medidas simples e eficazes de economia, como reduzir gastos com energia elétrica, água e material de escritório. No entanto, essas medidas podem não ser suficientes. Para uma mudança profunda de comportamento da empresa na relação com o dinheiro, é preciso investir na saúde financeira dos colaboradores.

“Disseminando conhecimento, a empresa contribui para criar um quadro de funcionários estável. Caso contrário, um colaborador endividado pressiona a área de Recursos Humanos, pede vale, adiantamento. É fundamental investir em um programa de educação financeira para toda a empresa”, recomenda Domingos.

 

Autor: Flávia Corbó