Hábitos em alteração

qui, 21 julho , 2016

financeiro-dec-21Enquanto os cheques perdem espaço, os cartões de crédito e os meios eletrônicos de pagamento são cada vez mais usados pelos brasileiros; mas o dinheiro ainda é a preferência entre a maioria da população

Assim como a rotina de consumo do brasileiro mudou na última década, quando milhões de pessoas migraram para a classe média e ganharam poder de compra, os meios de pagamentos mais utilizados pela população também sofreram modificações no decorrer dos anos. De acordo com o relatório O brasileiro e sua relação com o dinheiro, elaborado pelo Banco Central, o dinheiro em espécie continua sendo a opção preferida no País.

Isso pode ser explicado pelo fato de que cerca de metade da população economicamente ativa (51%) recebe o pagamento em dinheiro, principalmente os mais jovens e os menos favorecidos. E entre os que recebem com depósito em conta, 29% faz a retirada no caixa eletrônico, especialmente as classes A e B.

Apesar do dinheiro ainda ser a forma mais utilizada pelo brasileiro para arcar com os gastos, os cartões de débito e crédito ganharam muito espaço nos últimos anos. As estatísticas do Banco Central mostram que, entre 2006 e 2014, a utilização desses meios de pagamento aumentou cerca de 290%.

Na contramão desse movimento, encontra-se o cheque. No mesmo período, o uso dessa forma de pagamento caiu 47%. “A queda pode ter sido influenciada pela substituição dos cheques pelos cartões de pagamento, principalmente pelo cartão de crédito, que possibilita o parcelamento sem juros”, avalia o chefe de unidade do Departamento de Operações Bancárias e de Sistema de Pagamentos do Banco Central, Flávio Tulio Vilela. 

Novas formas de quitar as compras

A queda do número de cheques compensados ocorreu à medida que o número de contas correntes no País aumentou. Segundo a pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária, em 1995, o Brasil contava com 39 milhões de contas correntes. Em 2014, esse número passou para 108 milhões. No mesmo período, o número de cheques compensados no Brasil caiu de 3,3 bilhões para 672 milhões.

Além do aumento do uso de cartões de débito e de crédito, as estatísticas do Serviço de Compensação de Cheques (Compe) revelam que o cliente bancário tem deixado, cada vez mais, de usar cheques para optar por transferências eletrônicas.

Levantamento realizado com sete das principais instituições financeiras do País (Banco do Brasil, Banrisul, Bradesco, Caixa, HSBC, Itaú e Santander) revelou que o total de operações bancárias realizadas por internet banking (uso do banco pela internet) e mobile banking (uso do banco pelo celular) respondeu por 58,5% das operações realizadas no sistema bancário no primeiro semestre de 2015. No final de 2014, as operações por estes canais digitais somaram 50% do total.

“Os números revelam que o cliente bancário tem acompanhado a evolução tecnológica dos meios de pagamento digitais no Brasil, que crescem exponencialmente a cada ano”, avalia o diretor adjunto de operações da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Walter de Faria.

 

Número de operações financeiras por modalidade


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Porcentagem de valor movimentado nas operações financeiras por modalidade

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Em meio à crise

A instabilidade econômica enfrentada pelo Brasil, que fez disparar o desemprego, aumentou a inflação e diminuiu o poder de compra do brasileiro, deve causar reflexos nos meios de pagamentos. Isso porque, em regra geral, a posse de cartões é mais comum entre as pessoas de maior renda e escolaridade, além dos cidadãos ativos economicamente.

Os números mais atualizados do Banco Central são de 2014, mas já é possível ver sinais de refreamento no uso dos cartões. De acordo com o Relatório de Vigilância do Sistema de Pagamentos Brasileiro 2014, os cartões de débito apresentaram um crescimento similar à taxa média observada nos últimos seis anos, sem grandes oscilações. Já o uso do cartão de crédito apresentou decréscimo.

O endividamento da população pode ser uma explicação para a preferência por débito em detrimento do crédito. De acordo a Serasa Experian, 19,1% da população entre 41 a 50 anos de idade está inadimplente. A má situação financeira também atinge os jovens e de maneira crescente. Do total de inadimplentes no País, número que hoje alcança 60 milhões de pessoas, 15,7% dessa fatia está na faixa etária de 18 a 25 anos. Assim, são cerca de 9,4 milhões de indivíduos nesta média de idade com dívidas atrasadas, fazendo com que ocupem o segundo lugar no ranking de brasileiros negativados.

Quando não há condições de realizar mais pagamentos parcelados, a consequência natural é que o pagamento em débito seja privilegiado.