Em marcha lenta

ter, 18 julho , 2017

Quando comparado a outros países, o Brasil fica para trás em termos de produtividade. Entenda as causas do problema

Mesmo que um estabelecimento dê lucros mês após mês, pode não estar operando dentro da máxima capacidade. Isso porque, as empresas brasileiras, em geral, apresentam uma produtividade abaixo da média. Em outros países, um mesmo serviço pode ser feito com um número reduzido de funcionários em um espaço mais curto de tempo, sem afetar o resultado final.

É o caso dos Estados Unidos, por exemplo. Pesquisas indicam que basta um americano para realizar o trabalho de quatro brasileiros. Na Coreia do Sul, um colaborador chega a produzir até oito vezes mais do que é produzido por aqui.

O problema é grave e antigo. De acordo com uma pesquisa divulgada pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI), em 2015, a produtividade brasileira se manteve praticamente estável em comparação a outros 11 países, com crescimento de 0,1%. O indicador quase não se altera há quatro anos. E, quando analisados os últimos dez anos, há uma queda acumulada de 17% e de 32% desde 2000, ano de início da análise do órgão.

Dentro da indústria, existem números mais claros sobre o impacto que a baixa produtividade traz ao Brasil, mas o problema afeta todos os setores da economia brasileira, inclusive o varejo. Isso porque, as causas dessa baixa eficiência estão atreladas a características culturais e educacionais de todo o País.

“Fomos criados numa sociedade latino-católica onde trabalho era considerado castigo. Encaramos o trabalho como algo que te desgasta. Em outros lugares, trabalho é algo bacana, que te ajuda a construir algo. Aqui, lucro é pecado. Em outros países, é algo saudável. Os sindicatos brasileiros apregoam que empresário é vilão e trabalhador é castigado”, define o especialista em vending e entretenimento corporativo, Claudio Diogo.

Essa visão ruim que o brasileiro tem a respeito do trabalho afeta diretamente o ambiente das empresas. Os atrasos são mais tolerados, as reuniões perdem foco facilmente e há uma tendência a protelar tarefas mais complicadas.

“Falta objetividade. O brasileiro quer sempre ser amigo, criar vínculos. Na Europa e nos Estados Unidos, eles são mais objetivos, mais pragmáticos. Não entram em assunto pessoal e respeitam o tempo do outro”, observa o executivo da Rearch Consultoria, Marcelo Braga.

Além de ter pouca motivação para o trabalho, o brasileiro ainda sofre com uma deficiência educacional crônica, fazendo com que a mão de obra tenha pouca capacitação.

Em um País onde a qualidade do ensino, em geral, é ruim e as taxas de evasão escolar são altas, os jovens ingressam no mercado de trabalho sem uma boa base de informação.

Além disso, apenas 18% dos estudantes do Ensino Médio saem do colégio para uma universidade. “A maioria chega ao mercado de trabalho sem uma profissão, são tidos como generalistas”, analisa o gerente de pesquisa e competitividade da CNI, Renato da Fonseca.

Mesmo que pouco qualificados, os trabalhadores brasileiros ainda contam com o suporte de uma legislação trabalhista protecionista, apontada pelos especialistas como outro agente provocador de baixa produtividade. “Hoje em dia, é mais barato aturar um funcionário incompetente do que demiti-lo. Como as pessoas sabem disso, se acostumam com o errado, se acomodam”, opina Diogo.

Essa mesma legislação também obriga que funcionários que ocupem a mesma função dentro de uma empresa recebam exatamente o mesmo salário.

“Ou seja, obriga que pessoas mais produtivas tenham ganhos iguais mesmo sendo mais produtivas que outras. O mais comum é que se aplique um sistema de bônus por meta atingida, mas todos da equipe recebem o mesmo, independentemente de quem fez mais ou menos”, completa Fonseca.

Consequências da baixa produtividade

O baixo rendimento dos colaboradores tem impacto direto na competitividade do País. Com a produtividade ruim, é necessário um número maior funcionários e mais etapas ao longo da cadeia, que frequentemente necessitam passar por uma refação.

“Com isso, o produto brasileiro fica mais caro, não conseguimos exportar ou damos brecha para que outros vendam seus produtos aqui por terem preços mais competitivos. Isso atinge toda a cadeia, enfraquece a indústria local e desencoraja investimentos estrangeiros”, descreve Braga.

Outro problema é que, com uma mão de obra pouco qualificada, as empresas enfrentam dificuldade de inovar, trazendo novas tecnologias. Um supermercado, por exemplo, não consegue implementar um sistema de consulta de estoque por meio de tablets, se os repositores de mercadoria não têm conhecimento mínimo a respeito da ferramenta. A necessidade de treinar essa equipe irá representar um custo adicional, além da inserção na nova tecnologia.

Existe solução?

Para que a mudança seja efetiva e duradoura, a relação do brasileiro com o trabalho precisa começar a mudar dentro de casa, desde a criação dos pais. “É preciso passar aos filhos a ideia de que trabalho é importante, de que é preciso correr atrás do que se deseja alcançar. Dar asas e não raízes. Não criar ‘principezinhos’”, acredita Diogo.

Fora do ambiente da casa, contar com um sistema educacional de melhor qualidade é outro ponto que necessita de melhoria urgente. “Quando se aprimora a qualidade da educação, as pessoas chegam às empresas com uma base. Com menor carência de capacitação, não será preciso deslocar trabalhadores produtivos para ajudar os novos. Todos estarão trabalhando pelos resultados. Quando melhora a educação, você deslancha mais rápido”, afirma Fonseca.

Os especialistas consultados também defendem reformas nas leis trabalhistas, para que o comprometimento com a empresa possa ser recompensado de maneira mais justa. “É preciso permitir bônus e salário atrelados à produtividade”, reforça o especialista.

Todas essas ações são necessárias, mas preveem mudanças apenas em longo prazo. Para os varejistas interessados em aumentar a produtividade de suas empresas agora, o caminho mais curto, atenuante e eficiente é oferecer a capacitação que o brasileiro tanto carece. E esse conhecimento pode vir, inclusive, da parceria com bons fornecedores, a exemplo do DEC (Distribuidor Especializado em Cosméticos), que conta com uma equipe de consultores capacitados a oferecer treinamentos aos varejistas.

Além dos temas técnicos relativos a produtos ou à rotina de trabalho, outro ponto importante que pode ser trabalhado em cursos de capacitação é a liderança. Os gestores e gerentes de loja precisam ter uma liderança forte, capaz de transformar fraquezas em pontos de destaque.

“Os brasileiros são mais comunicativos, mais emotivos. É preciso dar uma atenção especial a isso e tirar proveito dessa situação. Quanto mais se entende as pessoas, mais o líder tem condição de trabalhar em cima disso. As características culturais brasileiras têm seu lado positivo. O líder precisa ter consciência do papel dele e saber direcionar, não deixar a equipe sair do foco”, orienta a consultora do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Maria Terezinha Peres.

Vale lembrar, ainda, que antes de cobrar maior produtividade dos funcionários, a empresa precisa estar certa de que está oferecendo todas as condições para que um bom trabalho seja desenvolvido.

“É preciso ter algo a dar, como possibilidade de crescimento, plano de carreira. Isso é um estímulo para aumentar a produtividade. Afinal, as pessoas são movidas a sonhos e expectativas”, finaliza.