De pai para filho

qui, 1 setembro , 2011

A sucessão numa empresa familiar precisa cuidar concomitantemente de três aspectos primordiais: a família, o patrimônio e a gestão do negócio. O processo sucessório não será bem sucedido se algum destes temas não for protegido e tratado adequadamente

 

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Profissionalizar a empresa e estruturar um processo de sucessão não significa, necessariamente, eleger um herdeiro para tomar conta do negócio. O mais importante é preparar os membros da família para serem sócios. Mas, afinal, quando é o momento certo para pensar em sucessão e escolher um profissional, que pode ser da família ou não, que ficará à frente dos negócios? A resposta é quanto mais cedo, melhor e, de preferência, quando o empreendedor ainda estiver vivo. Enfrentar um processo de sucessão familiar é delicado e como está relacionado com ligações tão estreitas, como de pais e filhos, pode causar mágoas para toda a vida. A dica é preparar o empreendimento e a família para a isso.

Herdeiro sim. Sucessor, nem sempre. Muitos empreendedores esquecem que herdeiro é uma condição natural, pois a esposa (o) e filhos são os donos do patrimônio, mas sucessor é aquele que está preparado para assumir a gestão da empresa. Antes de pensar no sucessor, é importante preparar a família para pensar e agir como sócia do negócio. Já o nome daquele que ocupará a cadeira do ‘pai’ deve ser decidido em conjunto, caso contrário, o escolhido poderá sofrer resistência na ausência do empreendedor. Mas, antes de reunir a família para decidir se o negócio será administrado por um familiar ou por um profissional de mercado, pergunte aos seus filhos ou sobrinhos o que eles realmente ‘querem da vida’. “Muitas vezes os empreendedores acreditam que os filhos se dedicarão ao negócio sem considerar que podem fazer outras escolhas profissionais. Existem vários casos da sucessão bem feita por profissionais de mercado, não por integrantes da família. Nesse caso, filhos, esposa e agregados continuam como sócios, embora não sejam os gestores da empresa”, observa o sócio da Bernhoeft Consultoria, Wagner Luiz Teixeira.

Na primeira geração, a empresa familiar é ágil, rápida, eficiente. “Isso é fácil de ser explicado porque o poder decisório normalmente está nas mãos, ou melhor, na cabeça de uma única pessoa. A estrutura do poder está centrada, com foco na viabilização e no crescimento do empreendimento”, explica o consultor do Sebrae-SP, Sergio Diniz. Mas, quando se fala em sucessão, remete-se a questões negativas, como afastamento dessa “cabeça”, aposentadoria ou morte. Por isso, esse assunto ainda é tabu em muitas organizações. “Pensar em passar o que construiu para alguém é doloroso. Existe uma ligação afetiva com a empresa”, lembra o sócio da Bernhoeft Consultoria, Wagner Luiz Teixeira.

Com a chegada de familiares para ocupar cargos na empresa, filhos, genros, noras entram no negócio e se transformam nos “novos donos”. Surgem os conflitos e, a partir disso, instala-se um clima de disputa pelo poder e ocorre então uma fragmentação. Todos querem mandar. Todos podem mandar. Afinal, todos são os novos donos”. A partir de então, conta Diniz, ocorre a fragmentação da empresa e muitos negócios não resistem e sucumbem.

Teixeira acredita que isso acontece porque é raro encontrar uma família com preparo para perceber que o filho cresceu. Com isso, os pais dificultam o processo que já é complicado, pois deslocam de um modelo individual para modelo coletivo. Porém, pior que ter a organização centrada em uma pessoa, é não ter uma liderança definida. “Muitas vezes, empresas não têm líder. Tem de ter alguém que toma a decisão”, alerta.

Dicas para planejar a sucessão

  • É preciso planejar o processo sucessório, pois a sucessão numa empresa familiar se caracteriza por tratar de aspectos fundamentais para a continuidade do negócio.
  • O ideal é que o processo seja iniciado enquanto o fundador ainda esteja vivo e atuante.
  • Os herdeiros precisam ser preparados para ingressar na empresa como sucessores e não simplesmente como “filhos do dono”. 
  • O gestor do negócio pode ser um profissional de mercado, não necessariamente um herdeiro.
  • Os herdeiros só devem ingressar na empresa como sucessores se realmente tiverem afinidade com a atividade e quiserem se dedicar ao negócio.
  • É importante definir regras para o ingresso dos filhos, dos agregados – genros e noras e de outros parentes na empresa.
  • Os herdeiros devem se capacitar para assumir a empresa.
  • Uma experiência vivenciada em outra empresa poderá ser muito útil para o sucessor, pois permitirá conhecer outro negócio e ambiente.
  • É de grande importância que os herdeiros conheçam toda a empresa e iniciem a sua atuação estagiando em vários setores, conhecendo a operacionalização dos processos e entendo como funciona o negócio.  
  • A sucessão numa empresa familiar precisa cuidar concomitantemente de três aspectos primordiais: a família; o patrimônio e a gestão do negócio. O processo sucessório não será bem sucedido se algum desses temas não for protegido e tratado adequadamente.

Depois de tomada a decisão, é momento de iniciar a construção do processo. “É preciso entender que uma empresa familiar envolve aspectos fundamentais a serem cuidados: a família, a propriedade e a gestão do negócio”, afirma Diniz. O planejamento deve ser elaborado com base no diálogo, no envolvimento e no comprometimento de todos. De acordo com Teixeira, quem vai ser o sucessor é uma questão secundária. A sociedade tem de ter futuro. O foco não deve ser na escolha, e sim em fazer uma sociedade empresarial. “Montar negócio foi opção do pai, por coincidência ou não, o filho pode sentir afinidade com o trabalho”, alerta Teixeira. Mas lembra que a preparação deve ser da família, e não apenas do herdeiro. Todos membros têm de estar educados para o processo de sucessão.

A pessoa escolhida deve ser bem desenvolvida e realizada. Teixeira acredita que é necessário que o sucessor tenha experiência no mercado. “A empresa familiar é o pior lugar para começar”. O ideal é ingressar da empresa familiar no mesmo nível que conseguiu atingir no mercado.

Para que a sucessão transcorra dentro de uma normalidade, é essencial que haja um planejamento prévio, e isso deve ser tratado antecipadamente e, de preferência, enquanto o fundador ainda estiver vivo e atuante. “Passar um negócio de pai para filho é muito mais complexo do que receber a empresa como parte de uma herança”, conclui o consultor.

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Bernhoeft Consultoria www.bernhoeft .com
Sebrae – SP www.sebraesp.com.br

Hora de passar o bastão
O processo sucessório, na visão do fundador das farmácias Avenida, envolve o lado emocional muito profundo, tem de conciliar família e empresa

Por Claudia Manzzano

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Nas farmácias Avenida, em Vitória, Espírito Santo, Paulo Marcos da Costa escolheu os filhos para assumir o negócio de 42 anos, que construiu com muito suor e ajuda da família. Essa história começa no interior do Estado, quando Paulo decidiu ir para a capital tendo apenas 14 anos. Na cidade grande, trabalhou em diversas farmácias até conseguir sua própria loja. No caminho, as dificuldades foram muitas, mas encontrou apoio da família, até sua esposa cursou faculdade de farmácia para poder ajudar. Os três filhos participaram lentamente do progresso da empresa e passaram por muitas funções, desde o balcão à administração. Atualmente, as farmácias Avenida têm 15 lojas, todas na Grande Vitória, e empregam 260 funcionários.

Paulo é um exemplo clássico de chefe de família e empreendedor que trabalhava de domingo a domingo, sem dar chance de planejar qualquer processo de sucessão. Até que, em 2001, sua esposa teve um grave problema de saúde, quando ele passou a dedicar mais tempo à família. Seu filho mais novo, Gustavo, conta que “o fato mexeu com a cabeça do pai… o tempo passa, fica tão envolvido com o negócio que deixa de aproveitar a vida”, conta. Quando voltou a trabalhar, Paulo tinha uma nova meta: o processo de sucessão.

Com três filhos formados em administração, com vivência fora do País e que participaram do crescimento da empresa, Paulo acreditava que não teria com que se preocupar. Cada um deles escolheu uma área para atuar: Junior, o mais velho, escolheu a parte administrativa financeira; Leandro ficou com o departamento de compras; e Gustavo, o mais novo, encarregou-se das vendas. Junto de quatro consultores, Paulo atuava como conselheiro enquanto os filhos tomavam as decisões. “O foco não era crescimento. Meu pai estava preocupado em passar o bastão”, lembra Gustavo.

Mas, com o tempo, os filhos tomaram seus próprios caminhos. Junior e Leandro decidiram que a farmácia não era o que eles queriam seguir e saíram. O bastão acabou ficando com Gustavo, que confessa ter feito esta escolha ainda com 18 anos, quando morava nos Estados Unidos e viu o pai passar por dificuldades.

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Gustavo ressalta que, durante o processo, seu pai deixou claro que se eles não quisessem ficar no negócio, venderia a farmácia. Atuando como conselheiro dos filhos, Paulo observava algumas decisões que, fatalmente, não trariam um bom retorno, mas resolveu deixar seus filhos aprenderem sozinhos. Com a opção de ficar, Gustavo também encarou o desafio de liderar uma equipe de funcionários muito antigos, que ainda o viam como filho do dono. “Existia resistência natural muito forte. A tendência era mais dar errado do que dar certo”, comenta. A saída foi definir foco e trabalhar de forma transparente, respeitar a todos e ter bom relacionamento.

Para o novo gestor da farmácias Avenida, não existe fórmula mágica para um processo de sucessão, porém, Gustavo lembra que a figura do pai (do gestor) é crucial para que aconteça de forma que não danifique as relações. Ele conta que o processo familiar acaba atrapalhando os negócios. O certo é entrar na empresa, esquecer a casa e não tentar agradar a todos. Mas claro que isso é muito difícil quando se trata de famílias. Seu pai, o Paulo, avalia de forma positiva a sucessão. “O processo sucessório envolve o lado emocional muito profundo, tem de conciliar família e empresa. Atualmente, eu me sinto realizado, cada um deles procurou fazer o que sentiu vontade. Eu não faria nada diferente, achei que o caminho era esse e segui. O mais difícil foi conter o lado emocional, mas acho que todos estão bem agora e não há disputa entre os irmãos, o que acontece muito por aí”, conclui o empreendedor.

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