Compulsão pelo trabalho

qua, 7 fevereiro , 2018

rh - Compulsão pelo trabalhoCompetitividade acirrada e o desejo de construir um futuro profissional sólido vêm alimentando uma verdadeira geração de workaholics. Pessoas que não se desligam do trabalho, mesmo quando estão fora do ambiente corporativo

O termo workaholic vem do inglês e identifica um perfil de profissional muito presente no mercado: o viciado em trabalho. Isso mesmo. São trabalhadores compulsivos, que não conseguem se desligar de suas obrigações profissionais e dividir seu tempo com atividades sociais, de lazer e até mesmo esportivas.

Mesmo em casa, um workaholic não consegue parar e está o tempo todo checando mensagens e e-mails corporativos, pesquisando notícias e informações sobre o mercado em que atua, buscando soluções para alguma pendência do dia ou da semana, e assim por diante.

A presença dos smartphones, tablets e laptops permitiu aos profissionais da sociedade moderna se manterem 24 horas disponíveis para as empresas. “Para o workaholic, essa realidade o permite se manter trabalhando quase que de forma ininterrupta”, comenta o coach e especialista em liderança desenvolvimento de equipes, Ricardo Resstel.

Um workaholic, muitas vezes, deixa de lado pessoas de seu convívio para se relacionar de maneira mais próxima apenas com colegas de trabalho, gerando prejuízo às relações familiares e sociais.

O médico e terapeuta do Núcleo Ser Treinamento e Consultoria, Dr. Marcelo Katayama, revela algumas outras características do workaholic. “Além das longas jornadas de trabalho, há uma necessidade de se falar sobre trabalho o tempo inteiro. Muitas vezes, passa a sensação de que sempre tem muitas coisas para fazer, e todas são urgentes e importantes, mesmo que não sejam”, conta.

Você é um workaholic?

Estudos recentes do departamento de Psicologia da Universidade de Bergen, na Noruega, estabeleceram os seguintes pontos para identificar o workaholic:

1. Você pensa em como você pode liberar mais tempo para trabalhar?
2. Você gasta muito mais tempo trabalhando do que havia inicialmente planejado?
3. Você trabalha para reduzir os sentimentos de culpa, ansiedade, desamparo e/ou depressão?
4. Pessoas lhe disseram para reduzir o ritmo de trabalho, mas você não deu ouvidos?
5. Você fica estressado se você for proibido de trabalhar?
6. Você deixa de lado passatempos, atividades de lazer e/ou exercícios por causa do seu trabalho?
7. Você trabalha tanto que impacta negativamente sua saúde?
Se você respondeu positivamente a alguma dessas afirmativas, há chances de você ser um workaholic.

Ainda segundo o Dr. Katayama, profissionais com esse perfil podem acabar desenvolvendo, com o tempo, ansiedade, depressão, esgotamento físico e emocional, explosões emocionais e até quadros mais graves de saúde.

O Dr. Katayama diz que existem algumas diferenças entre a pessoa que gosta muito do que faz – hoje chamado de worklover, e um workaholic. “O worklover consegue manter um equilíbrio entre o trabalho e a vida social e familiar. Já um workaholic trabalha muitas horas por dia, nem sempre em um emprego que gosta, deixa de lado as relações familiares, amizades, tem um medo muito grande de fracassar, apresenta mau humor, insônia, atitudes agressivas no ambiente de trabalho, distúrbios sexuais, entre outros”, explica.

Estabelecendo limites

De uma forma natural ao perfil, o profissional workaholic irá cobrar mais comprometimento dos outros colaboradores e, ao mesmo tempo, estes colaboradores irão cobrar que ele não fique tão obcecado pelo trabalho e é nesse momento que a divergência de opiniões pode gerar conflitos.

O colaborador da Academia de Varejo, Arnaldo Mello, recomenda, para evitar que isso ocorra,  que o gestor do profissional com o perfil workaholic – se posicione e mostre que ele não pode cobrar dos outros algo além do período de trabalho.

Dependendo do nível da compulsão, o workaholic pode ser visto como alguém que quer todos os holofotes para ele, o que pode gerar desentendimentos e desconfiança.

“Quando se trata de um gestor, ele pode estabelecer um ritmo de trabalho que não é suportável e nem saudável para sua equipe. Isso acaba por gerar desmotivação e estafa do time. Por fim, ele pode acabar perdendo grandes talentos”, alerta Resstel.

Mas nem tudo é ruim quando se fala em trabalhadores compulsivos ou viciados em trabalho. O workaholic também deve ser encarado como alguém bastante focado, que sempre encontra uma forma de poder trabalhar para concluir o seu projeto.

Na opinião da head de gestão de pessoas e governança corporativa da AGR Consultores, Célia Silvério, tratam-se de pessoas dinâmicas, com muita energia e apaixonadas pelo que fazem.

“Ser um workaholic pode se tornar um problema para pessoas que não possuam estrutura que lhes permita uma dedicação que exclusiva ao trabalho. Mas se a pessoa estiver feliz, realizada e certa de seus objetivos, está tudo certo”, comenta.

O ponto de equilíbrio ideal seria uma jornada de trabalho produtiva e que desse ao trabalhador tempo para outras atividades, como o convívio social, familiar, lazer.

“Atualmente, está cada vez mais claro que, para sobreviver em um mercado altamente competitivo, as pessoas precisam ser mais eficientes e isto não significa ter de trabalhar mais horas obrigatoriamente”, diz o Dr. Katayama.

Por outro lado, as pessoas têm valorizado cada vez mais uma boa qualidade de vida, o que não significa obrigatoriamente em ter mais tempo sem fazer nada. “O desafio é conseguir ser mais eficiente em um mesmo tempo e aproveitar ao máximo o tempo livre”, finaliza o médico.

Foto: Shutterstock